A Maçonaria na Amazônia

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Categoria: Espaço do Ir Antonio Loureiro Publicado em Quarta, 11 Dezembro 2013

OS PRIMEIROS TEMPOS

    Durante o século XVII já existiam maçons na Amazônia Portuguesa. Este foi o caso de Francisco Xavier de Mendonça Furtado, capitão general e governador do Estado do Grão-Pará e do Rio Negro, irmão do Marques de Pombal, e de outros membros de famílias maçônicas, como os Ataíde e Teive, os Mello e Castro, os Souza Coutinho, os Gomes Freire graças aos quais se evitou aqui a criação de um estado religioso.

    O reinado de D.José I foi glorioso para a Maçonaria, que viveu uma época de esplendor até a sua  e Maurício José Moreira, um maçom fraco, a polícia fez buscas e apreensões em residências e apreendeu os arquivos do Grande Oriente Lusitano. Foram presos 17 maçons, sendo o delator solto, os civis, com prisão domiciliar fixa, e os militares, como Felipe Alberto Patroni, oficial da Marinha, natural do Pará, encarcerados por mais algum tempo.

As perseguições de 1810 foram ainda mais graves. Entre 10 e 13 de setembro daquele ano, na chamada Setembrizada foram presos uns 50 maçons, sendo todos deportados para a ilha Terceira e depois distribuídos pelo arquipélago dos Açores.. Entre eles estavam alguns dos prisioneiros de 1809, inclusive o nosso amazônico Felipe Patroni.

    A 6 de março de 1817 eclodiu a revolta republicana de Pernambuco, o maior centro maçônico do Brasil, onde após setenta e quatro dias de lutas, muitos maçons foram presos e treze condenados à morte. A rebelião fora apoiada pelo Grão-Mestre do Grande Oriente Brasileiro Antonio Carlos Ribeiro de Andrada.

    Quase ao mesmo tempo, o descontentamento contra a Regência de Beresford e as tropas inglesas em Portugal tomou vulto, com os maçons conspirando, em Lisboa.  Em maio, mais uma vez, três irmãos traidores, atemorizados com os acontecimentos de Pernambuco, denunciaram uma conjura do Grande Oriente Lusitano visando à derrubada da Regência. A Polícia atuou rapidamente com muitas prisões, inclusive a do Grão-Mestre Gomes Freire de Andrade. Os processos correram céleres. Gomes Freire foi sentenciado, a 15 de outubro de 1817, e enforcado a 18 do mesmo mês, junto à fortaleza de São Julião da Barra, enquanto outros onze foram suspensos na forca do Campo de Santana, em Lisboa, três, deportados, um, expulso do País e os três delatores, absolvidos. Do grupo dos enforcados cinco eram sem dúvida maçons, além do expulso do País.

    Na prisão Gomes Freire foi sempre apoiado pelos maçons ingleses, ao ponto da Polícia ter acusado o comandante da fortaleza de São João o maçom marechal Archibald Campbell, e o tenente-coronel do regimento 19º Robert Haddock, de tentarem obstruir a Justiça, sendo que este último ofereceu-lhe fuga, recusada pelo general.

                                                                   
                                                           GOMES FREIRE DE ANDRADE
    Antecipando-se ao que poderia acontecer, após as prisões de numerosos obreiros, a Ordem mandou suspender todos os trabalhos, as reuniões passaram a ser informais, sendo criada a Loja Segurança Regeneradora, como centro comum, tudo isto em maio de 1817.  

A 30 de março de 1818, foi promulgado, no Brasil e em Portugal, o primeiro Alvará Antimaçônico. O Inquisidor Geral Dom José Maria de Melo regozijou-se e convocou todos para uma caçada às feras maçônicas inimigas do Altar e do Trono, sugerindo a exclusão dos maçons dos serviços públicos e eclesiásticos, como já fora feito com judeus, mouros e mulatos. A partir de então pertencer à Maçonaria significava perder os seus bens, bem como ter em seu poder livros, símbolos, estampas, selos, medalhas, catecismos (rituais) e impressos relativos à prática maçônica. Os maçons passavam a incorrer em crime de lesa majestade, sendo traidores e condenados à morte cruel.

De 1817 a 1820 a Maçonaria ficou inativa, em Portugal, embora continuasse a existir medrosamente a Loja Segurança Regeneradora, centralizando toda a atividade maçônica.


FONTES
A. H. de Oliveira Marques - Historia da Maçonaria em Portugal – Editorial Presença- Lisboa - 1990
A.H.Oliveira Marques – A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo – Publicações Dom Quixote – Lisboa -1983
José Castellani - História do Grande Oriente do Brasil – GOB – Brasília – 1993


A PRIMEIRA LOJA MAÇÕNICA DA AMAZÔNIA

    A Revolução Constitucionalista de Portugal, do ano de 1820, previu que as antigas capitanias brasileiras deveriam mandar representantes às Cortes. Em 1821, no Pará, foram eleitos o maçom, estudante de Direito em Coimbra e oficial da Marinha Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente e o alferes de milícias Domingos Simões da Cunha, que também seria iniciado, enquanto o Rio Negro indicava João Lopes da Cunha e José Cavalcante de Albuquerque.
     
    ‘A idéia da fundação de uma Loja, em Belém, foi de Domingos Simões da Cunha, sob os auspícios do presidente da Província coronel José Felix Pereira Burgos, Barão de Itapicuru-Mirim, portugues de origem, que a governava pela segunda vez: (28/5/1825 a 14/4/1828) e (14/7/1830 a 19/7/1831).

    Com o nome de Tolerância, ela foi instalada no dia 22 de janeiro de 1831, na casa do almoxarife dos Armazens da Marinha Gaspar Corrêa de Vasconcellos, sita no Largo dos Quarteis, hoje Praça Saldanha Marinho, no canto da rua Rosário, atual Aristides Lobo nº13, isto em 1911, a data das nossas informações (1).

    Foram filiados nessa Loja :
Coronel José de Araujo Rozo- Caramuru - Primeiro Presidente da Província do Grão-Pará (2/5/1824 a 28/5/1825)

Marcelino José Cardoso – Caramuru. Médico e Presidente interino da Província entre 7/8/1831 e 27/2/1832, após a deposição do Presidente filantrópico Bernardo José da Gama, visconde de Goiana.

Tenente-Coronel José Joaquim Machado de Oliveira – Presidente da Província de 27/2/1832 a 4/12/1833. Também tinha tendências liberais, e indiciou 49 implicados na deposição do Presidente anterior, muitos dos quais foram deportados para Portugal. Anistiou Batista Campos e mandou desarmar a guarda de Marcos Martins, organizando em seu lugar a Guarda Imperial, entregue ao “exaltado” tenente Germano Máximo de Souza Aranha, pacificador de Santarém, em 1831, quando aquela cidade se manisfestou contrária à Abdicação.Em abril de 1833 enfrentou a denominada Rebelião de Jales, considerada como a última tentativa portuguesa de permanência no Brasil.

Bernardo Lobo de Souza – Presidente da Província de 4/12/1833 a 7/1/1835. Logo entrou em choque com o padre Batista Campos, a maior figura política da Província e que sucumbiu no início da Cabanagem.

Coronel Henrique Ambrósio da Silva Pombo, Barão do Jaguari, Caramuru.
Coronel Manoel Sebastião de Mello Marinho Falcão, comandante dos Guardas Nacionais do município de Belém. Morto no início da Cabanagem. Membro da câmara municipal. Filantrópico.

Coronel João Henriques de Matos, comandante do Corpo de Artilharia.

Capitão de Mar e Guerra José Joaquim da Silva, foi membro do Conselho Provincial.

Capitão de Mar e Guerra Guilherme Cypriano Ribeiro, intendente da Marinha.

Tenente-Coronel Antonio Corrêa Seara.

Major José Batista da Silva, o Camecran, membro da câmara municipal, do Conselho Presidencial, filho do bispo Manuel Caetano Brandão.

Capitão de Artilharia Antonio Bernal do Couto, comandante da bateria do Castelo.
Capitão Raimundo Veríssimo Nina secretário do comando de Armas.

Capitão Domiciano Ernesto Dias Cardoso. Caramuru. Morto pelos cabanos, durante a  invasão do Palácio.
Antonio de Lacerda Chermont, Barão e visconde do Arari.

Antonio Manoel de Souza Trovão, membro da câmara municipal e do Conselho Presidencial. Filantrópico.
 
Pedro José de Alcântara.

Antonio Feliciano da Cunha e Oliveira, advogado.

Marcelino José Cardoso, médico formado em Coimbra, em 1825, membro do Conselho da Presidência.

Padre Silvestre Antunes Pereira da Serra, cônego da Catedral.

Padre Gaspar de Siqueira e Queiroz, cônego, filantrópico, inicialmente amigo de Baptista Campos, deportado para Marabitanas, em agosto de 1831.Tornou-se depois seu feroz inimigo.redigindo o jornal Correio Oficial Paraense, que apoiava Lobo de Souza.

Padre José Lourenço de Souza.

Manoel Rodrigues de Almeida Pinto, funcionário público.

João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha, funcionário público, futuro 1º Presidente da Província do Amazonas.

Marco Antonio Rodrigues Martins, o Mundurucu Pai Quicé, membro da câmara municipal.

Diogo Vaz da Moya.
Manoel Evaristo da Silva e Souza.

Domingos Simões da Cunha.
João Antonio Corrêa Bulhão, proprietário.

João Gama Lobo de Anvers, proprietário.

Manoel Vicente de Carvalho Pena, proprietário.

Bento Garcia Galvão D’Haro Farinha, proprietário.

Vicente Antonio de Miranda, proprietário.

Antonio José de Miranda, proprietário.

José Soares de Azevedo.

José Ribeiro Guimarães.

João Manoel Rodrigues Martins.

Teodósio da Silva Neves, comerciante.

José Paes de Souza, comerciante.

Manoel Gomes Pinto, comerciante.

Honório José dos Santos.

José Joaquim Rodrigues Martins, proprietário.

Manoel Emílio Pereira Guimarães, proprietário.

João Antonio de Souza Azevedo Quebra, proprietário.

João Henrique da Silva Lavareda, comerciante e outros.

    O cônego Baptista Campos criara a 11/7/1831, a Sociedade Patriótica, Instrutiva e Filantrópica, a qual pertenciam membros da Loja Tolerância: o cônego Gaspar de Siqueira e Queiroz e Antonio Manuel de Souza Trovão.

    Também desejara entrar na Maçonaria, mas, segundo o Barão de Guajará, em 1833, foi rejeitada a proposta de admissão do cônego Baptista Campos, um dos mais importantes líderes políticos nacionalistas da Província, nos quadros da Loja, veementemente atacada pelo Presidente Machado de Oliveira. O cônego, despeitado com a ocorrência, tornou-se um inimigo fidalgal da Ordem, instilando, no espírito do povo e das famílias católicas intolerantes, ignorantes e fanáticas, o veneno contra a Maçonaria, que não o aceitara. E isto o fazia continuamente no púlpito, no confessionário, nas igrejas e quermesses, transformando a Ordem em um Inferno na Terra, e seus membros, em demônios, com a presença do diabo em forma de bode, nas sessões. Participante da Cabanagem pregou este ódio entre os cabanos, grupo rebelado contra a Regência, composto de negros, índios mestiços e brancos nascidos no País, alegando que a Maçonaria era o centro dos portugueses, dos brancos, dos ricos e dos ateus. Daí o bispo não aceitar a doação de oitocentos contos arrecadados                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                pela Loja, destinados a uma instituição de caridade mantida pela Igreja. Os desentendimentos avultaram, a partir de 7/4/1834, quando Lobo de Souza quis celebrar o aniversário da Abdicação, solicitando atos religiosos ao bispo e encontrou a catedral vazia, chegando a atitudes agressivas contra padres. A propaganda da Igreja contra a Maçonaria tomou força e vigor a partir de então.

    O bispo dom Romualdo de Sousa Coelho emitiu então uma pastoral datada de 28 de maio de 1834, um dos mais violentos, torpes e mentirosos libelos jamais emitidos contra a Ordem. Contudo a impressão da Pastoral caberia à tipografia do maçom Honório José dos Santos, que antes de qualquer ação levou-a ao conhecimento do presidente Lobo de Souza. Este agiu intempestivamente com ameaças e até repeliu a proposta do bispo de modificar a sua redação, em total demonstração de intolerância. O bispo não a publicou mas viajou para Cametá, sua cidade natal, onde se refugiou.

    Esses alguns dos motivos que levaram a Cabanagem a investir contra a Maçonaria.
    Essa revolta assolou toda a Província do Grão Pará, de Tabatinga ao Marajó, iniciando-se, a 7 de setembro de 1834, com as querelas políticas entre o Presidente Lobo de Souza e os líderes locais representados pelo cônego Batista Campos e Félix Antonio Clemente Malcher, sendo violentamente reprimida pelo primeiro, no seu começo, com saques a sítios e fazendas, e massacres.

    Por isso, a 7 de janeiro de 1835, após o seu fortalecimento, duas colunas de cabanos entraram em Belém: a de Antônio Vinagre, que tomou o Quartel do Batalhão de Caçadores, matando toda a oficialidade ali existente; e a segunda, do tenente João Miguel de Souza Aranha, que se dirigiu para o Palácio do Governo, sendo depois encontrados em lugares próximos e mortos o comandante de armas Joaquim José da Silva Santiago e o presidente maçom Lobo de Souza cujos corpos desnudos foram expostos à vista do povo... Também foi morto em seu quartel o capitão maçom Domiciano Ernesto Dias Cardoso.

    Ao mesmo tempo, aos gritos de “Morram os maçons! Morram os portugueses! Viva a nossa religião!”, dirigiram-se à Loja Tolerância onde arrombaram as portas aos golpes de machado, devassando todos os cantos. Pelas janelas foram lançadas a mobília, os adornos e os papeis, sob terríveis impropérios. Os livros foram rasgados ou levados pelos chefes do ataque, andando de mão em mão como curiosidades.

    A Cabanagem ainda durou até o final de 1836,no Pará, mas só foi sufocada,na região de Maués, no Amazonas, por volta de 1840, custando milhares de mortes em toda a Amazônia e a destruição da sua estrutura produtora de comodidades:cacau e café.
    A Maçonaria na Amazônia só voltaria a existir uns vinte e cinco anos depois.

    O Brasil dominava  definitivamente, massacrava a sua população e destruia a concorrência ao café e ao cacau.
 
    Enquanto os generais da futura Guerra dos Farrapos eram absorvidos pelas nossas Forças Armadas, os da Canagem eram considerados criminosos e mandados para Fernando de Noronha, ou executados.
    
1:- Manuel Barata - A Primeira Loja Maçônica no Pará - Boletim do Grande Oriente do Brazil – Novembro de 1911 – RJ – Typ. Do Ir. Hildebrandt
2:- Antonio José Souto Loureiro - Síntese da História do Amazonas – Imprensa Oficial – Manaus- AM- 1978
3:- José Wilson Aguiar - História da Maçonaria no Acre - Rio Branco – Acre - 2006
4:- Domingos Antonio Rayol – Motins Políticos – 1º e 2ºVolumes - Universidade Federal do Pará – 1970


O RESSURGIMENTO

    Após a destruição da Loja Tolerância, somente voltaram a funcionar lojas maçônicas, no Pará, em 1857.

    Foram então fundadas as Lojas:

Harmonia – 28/3/1857
Firmeza e Humanidade – 28/5/1857
Harmonia e Fraternidade – 15/11/1858
Cosmopolita 1º/6/1864
Renascença -10/10/1872
Aurora – 18/1/1873
Antonio Baena – 24/8/1899
Fraternidade Pinheirense – 26/6/1918
Firmeza e Fraternidade Sourense – 25/6/1922
Cavaleiros de Malta – 3/10/1927
Resistência – 5/3/1928

    A 28 de julho de 1927, foi fundada a Grande Loja Maçônica do Pará, com as cinco lojas Firmeza e Humanidade, Cosmopolita, Renascença, Antonio Baena e Firmeza e Fraternidade Sourense, às quais mais tarde juntaram-se as lojas restantes, em 1934, exceto a Aurora, que ficou fiel ao Grande Oriente do Pará.

    Desde então as duas jurisdições cresceram e atualmente no Estado do Pará existem 113 Lojas sendo 70 da Grande Loja, 40 do Grande Oriente e 3 da COMAB.
1:- Histórico do Grande Oriente do Estado do Pará – Na Revista Na Sombra das Acácias Nº3 – Junho de 2003.

2:- José Wilson Aguiar - História da Maçonaria no Acre - Rio Branco – Acre - 2006
3:- Site da Grande Loja do Pará - http//www.glepa.org.br/a_glepa/

Ir Antonio Loureiro  -  Grão-Mestre  Emérito do GOEAM

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Caros IIr.'.

Pensamento maçônico internacional, onde diz: - para se unirem basta seguir os rituais centenários da maçonaria e serem verdadeiros maçons.
A Maçonaria somos nós, e ela somente será grande se nós formos pessoalmente grandes. Não esperamos encontrar na maçonaria o que não encontramos dentro de nós mesmos. Nada poderá ser maior do que a soma da grandeza de seus componentes.
(Extraído do livro: Antologia Maçônica de Ambrósio Peters)

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